Resumo
Os grupos terapêuticos são, uma ferramenta essencial, para a reabilitação psicossocial de dependentes químicos. Através de conceitos de mudança de hábitos, construção conjunta e atividades que fossem capaz de estimular o desenvolvimento de habilidades e competências para uma vida em sociedade, a pesquisa foi objetivada em avaliar a influência da participação no grupo terapêutico para o processo de reintegração social, uma pesquisa do tipo descritiva e qualitativa, analisada através de observação não participante, e registros em diários de campo, em uma amostra por conveniência e de participação voluntária, de 10 dependentes químicos, do sexo masculino, participantes do grupo terapêutico de dependência química do Centro de Atenção Psicossocial I de Charqueadas/RS. A partir das observação da intervenção, os objetivos da pesquisa foram parcialmente atingidos, já que os grupos terapêuticos têm influência crucial no processo de reintegração social dos usuários.
Palavras-chave
Reintegração Social
Dependentes Químicos
Grupo Terapêutico
CAPS I
Abstract
Therapeutic groups are an essential tool for the psychosocial rehabilitation of individuals with substance use disorders. This descriptive, qualitative study aimed to evaluate the influence of therapeutic group participation on the social reintegration process. Data were collected through non-participant observation and field notes involving a convenience sample of 10 male participants from the substance abuse therapeutic group at the Psychosocial Care Center I (CAPS I) in Charqueadas, RS. Observations of the intervention indicated that the study's objectives were partially met, as therapeutic groups play a crucial role in the users' social reintegration process.
Keywords
Social Reintegration
Chemically Dependent Individuals
Therapeutic Group
CAPS I
Trabalho Completo
INTRODUÇÃO
Os grupos terapêuticos são, uma ferramenta essencial, para a reabilitação psicossocial de dependentes químicos, contendo espaços seguros e colaborativos para que as pessoas possam compartilhar suas experiências, obterem apoio emocional e prático, além de aprenderem habilidades sociais, e poderem construir uma rede de aprendizado e apoio mútuo. Segundo Santos (2017), “a participação em grupos terapêuticos pode promover a redução do isolamento social e aumentar a autoestima dos indivíduos com dependência química.”
Como parte do processo de redução de danos na dependência química, que conforme Silva (2023), também é conhecida por vício em drogas, sendo isso ocorrências fisiológicas, cognitivas, comportamentais e emocionais que se desenvolvem no organismo da pessoa, depois do consumo de substâncias psicoativas, foi aplicado uma intervenção baseada na política de redução de danos do Ministério da Saúde conforme abaixo:
A política de redução de danos surgiu como uma resposta aos padrões de uso que geram riscos de uma transmissão de agentes infecciosos, sendo uma abordagem que visa minimizar os danos associados ao uso de substâncias psicoativas e comportamentos de risco. Concentrando-se em reduzir os riscos à saúde e sociais associado ao consumo destas substâncias. Uma vez que, reconhece que o consumo pode não ser completamente eliminado, por tanto visa a diminuição do uso ao ponto de que os danos sejam minimizados, ao invés de eliminá-lo por completo através de medidas punitivas. Assim contribuindo para um uso de drogas mais seguro pelos usuários. Uma das propostas da política é: ao invés de ingerir álcool buscar por ingestão de líquidos não alcoólicos, nutrição adequada, entre outros. (BRASIL, 2002)
A instituição de pesquisa foi o Centro de Atenção Psicossocial I (CAPS I), que integra a rede do Sistema Único de Saúde, o SUS, no Rio Grande do Sul, com objetivo de promover a reintegração social dos dependentes químicos participantes do grupo terapêutico que a instituição promove. Já que nesse contexto:
Profissionais e usuários podem desenvolver uma relação que fortaleça a interação social, desenvolvendo vínculos que facilitem a reintegração social por meio do cuidado em saúde mental em seu conceito ampliado, e também a busca de novas propostas para desenvolvimento do grupo nas sessões de trabalho (SILVA, 2017).
A atividade foi disposta em 3 pilares, o primeiro como descrito por Silva (2017), o objetivo era que a atividade pudesse ser capaz de estimular e/ou desenvolver habilidades e competências para uma vida em sociedade, valorizando a criatividade, participação e dando um novo sentido ao tratamento e acompanhamento pelo serviço CAPS I. O segundo pilar, é referente à de mudanças de hábitos, que conforme descrito por Kleina:
Mudar um hábito é difícil devido à tendência do nosso cérebro de poupar energia. Estima-se que um quinto da nossa energia seja consumida pela atividade cerebral. É muito, não é mesmo?
Por isso adotamos hábitos em nosso dia a dia, sejam eles bons ou ruins. Um hábito nada mais é do que um padrão de comportamento que é exercido pelo indivíduo com facilidade, quase de forma inconsciente, o que dá agilidade no processamento de informações.” (Kleina, 2024)
Já o terceiro pilar, foi priorizado uma abordagem conjunta com os dependentes químicos, do grupo, como explica Amatuzzi:
Quando nos deparamos com um grupo, podemos adotar a postura de resolver seus problemas através de dicas orientadoras. Não estamos, então, confiando no próprio processo grupal. Se, ao invés disso, propusemos uma abertura de todos a todos, a partir de seus centros pessoais (a partir do coração), então as soluções ocorrerão, mas não como coisas prontas, e sim como um novo rumo mais criativo que o próprio grupo acaba assumindo.” (Amatuzzi, 2001, p.124).
Logo, foi realizada uma “Chuva de Ideias”, onde o grupo trouxe sugestões de atividades de lazer que pudessem ser feitas em substituição aos hábitos de drogadição. Todas as sugestões levantadas foram recheadas de informações e instruções para que em um recipiente, anotadas em papeis separados e dobrados, cada um pudesse levar para sua casa, e em momentos de necessidade utilizarem o recurso para facilitação da mudança do hábito e consequentemente contribuir na reinserção social.
METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como sendo do tipo descritivo e qualitativo, que avaliou a influência da participação no grupo terapêutico para o processo de reintegração social de 10 de dependentes químicos, do sexo masculino, participantes do grupo terapêutico de dependência química do CAPS I de Charqueadas/RS, uma amostra por conveniência de participação voluntária.
Foi avaliada a forma como o processo de reintegração social acontece, a eficiência do grupo e as dificuldades encontradas, através de registros e anotações das observações não participantes e assistemáticas durante o acontecimento grupal, e da coleta de dados pelo questionário de satisfação, aplicado aos participantes no fim da intervenção, com escala de 0 à 5, sendo 0 ineficiente e 5 eficiente. A intervenção aplicada foi feita através de uma construção colaborativa de chuva de ideias e pesquisa de informações na internet.
Já a análise dos resultados do formulário, foi feita considerando a soma das notas dividida pela quantidade de respondentes, sendo valores iguais a 0, 1 e 2 ineficiente e 3, 4 e 5 eficiente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na pesquisa realizada foi observado no fim da intervenção que dos 6 dependentes químicos presentes, todos manifestaram alegria, sorriso no rosto e entusiasmo por terem recebido o recipiente com as sugestões de atividades de lazer. Entretanto, o questionário de avaliação da pesquisa teve apenas 1 respondente, que considerou nota 4,6 de 5, mas que também mencionou não ter posto em prática nenhuma das sugestões, desde as duas semanas anteriores.
Colocando para dialogar as principais dificuldades relatadas e a falta de assiduidade dos mesmos, é necessário considerar que há gatilhos nos seus ciclos sociais que provocam recaídas: em casa com a família, que nas confraternizações enchem a geladeira de bebidas alcoólicas; na roda de amigos que ainda usam drogas, e também no contato com colegas de trabalho que fazem uso de substâncias psicoativas, também foi relatado a dificuldade com os efeitos colaterais do tratamento medicamentoso. Já com relação à participação nos grupos, a cada encontro, foi observado que o número dos presentes era altamente variável, sendo de 3 participantes a 10 participantes. As duas questões impactam significativamente uma na outra, ou seja, quando a recaída acontece, a frustração, períodos depressivos, dentre outras coisas, acaba influenciando diretamente na participação dos usuários no grupo terapêutico.
A ausência dos usuários que impossibilitaram avaliar a eficiência da intervenção, pode ter sido causada por recaídas, por isolamentos, ou mesmo porque, conforme Silva et. al.,2023 envolve compartilhamento de traumas, experiências e é um processo difícil.
Os pacientes que relatam determinantes intrapessoais como causas principais para a recaída no tratamento descrevem uma necessidade incontrolável da droga como forma de sanar suas necessidades físicas e emocionais, muitas vezes desencadeadas por incapacidade de absorver frustrações, que pode ser descrita como necessidade orgânica e/ou psíquica, uma vez que durante o período de abstinência relatam sintomas físicos e psicológicos pela falta de uso dessas substâncias. (BURIOLA, et. al, 2018)
Com essa prerrogativa, a intervenção foi proposta para que o paciente possa incluir novos hábitos, novas amizades e novas atividades no seu dia-a-dia, e que através disso consiga ficar longe de gatilhos que podem ser despertados através de locais ou pessoas do ciclo social que também sejam usuárias de drogas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das observação da intervenção, os objetivos da pesquisa foram parcialmente atingidos, já que os grupos terapêuticos têm influência crucial no processo de reintegração social dos usuários. A reintegração social se dá a partir de compartilhamento de experiências e conexões com outras pessoas, e as principais dificuldades relatadas são o meio social onde vivem, que instiga recaídas, já o grupo terapêutico em si usa uma abordagem humanista com o plano de fundo: a política de redução de danos. Porém não foi possível avaliar de forma numérica a eficiência do grupo terapêutico como intervenção complementar no tratamento com dependentes químicos do CAPS I.
Mesmo considerando um estudo satisfatório, para que haja maior enriquecimento da literatura e da pesquisa científica em posteriores estudos, é importante que haja um cronograma que considere imprevistos nos últimos encontros, para que assim seja possível a coleta das avaliações.
Recomenda-se também, uma amostragem maior de participantes na pesquisa, inclusão nas variáveis de adesão/assiduidade o programa do governo brasileiro “Justiça Inclusiva”, a inclusão de análise das questões familiares no processo de reintegração social de cada um dos participantes,a relação comorbida da depressão nesse processo de tratamento, e também avaliar as questões medicamentosas como influenciadoras no bem estar dos usuários.
REFERÊNCIAS
SANTOS, A. M. et al. Grupos terapêuticos como recurso no tratamento da dependência química: Uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem, 2017.
SILVA, S. F., et. al. Como a psicoterapia de grupos pode auxiliar no tratamento de pacientes dependentes químicos. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 2023, Disponível em: https://doi.org/10.51891/rease.v9i6.10400
BRASIL, Ministério da Saúde. Portaria nº 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002. Brasília, DF, 2002
SILVA, C. S. O., et al. Grupo de apoio terapêutico e oficinas terapêuticas como equipamentos assistenciais na atenção psicossocial: relato de experiência. 13º congresso internacional rede unida. 2017.
KLEINA, O. Como mudar um hábito, de acordo com a neurociência. Pucpr.br, 2024. Disponível em: https://posdigital.pucpr.br/blog/como-mudar-habito-neurociencia
BURIOLA, A. A, et al. Análise de determinantes intrapessoais e interpessoais como motivos de recaída no contexto da dependência química. Journal Nursing and Health, 2018. Disponível em: https://periodicos-old.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/enfermagem/article/view/14022